Em maio de 2026, as duas maiores fabricantes de modelos de IA fizeram, quase ao mesmo tempo, algo que parecia improvável: criaram empresas dedicadas a implantar IA dentro das corporações. Quem vende o modelo agora também quer vender a obra inteira. Para consultorias de tecnologia e times de TI, a pergunta deixou de ser “qual modelo usar” e passou a ser “quem vai colocar isso para funcionar”.
O que Anthropic e OpenAI anunciaram
A Anthropic montou uma empresa de serviços de IA com Blackstone, Hellman & Friedman e Goldman Sachs como sócios fundadores. Segundo o SiliconANGLE, o capital soma cerca de US$ 1,5 bilhão: US$ 300 milhões cada da Anthropic, da Blackstone e da H&F, e US$ 150 milhões da Goldman. A Olhar Digital converte o total para R$ 7,4 bilhões.
A OpenAI respondeu com a Deployment Company. De acordo com o Yahoo Finance, a empresa captou US$ 4 bilhões de 19 investidores, entre eles TPG, Brookfield, Advent e Bain Capital, e vale cerca de US$ 10 bilhões. Para ganhar escala desde o primeiro dia, a OpenAI comprou a Tomoro, consultoria de IA criada em parceria com ela em 2023, o que trouxe cerca de 150 engenheiros e especialistas em implantação, conforme a Fast Company Brasil.
Engenheiro dentro do cliente: o modelo por trás das duas empresas
Os dois movimentos usam a lógica do forward-deployed engineer, o engenheiro de campo que a Palantir popularizou. Em vez de entregar uma API e um manual, a empresa coloca gente sentada ao lado do cliente. O Yahoo Finance descreve um engajamento típico: o time de engenharia se reúne com médicos e equipe de TI para construir ferramentas que se encaixam nos fluxos que essas pessoas já usam.
O alvo declarado são empresas de médio porte. No caso da Anthropic, os primeiros clientes vêm do portfólio dos próprios investidores. Segundo o SiliconANGLE, a OpenAI mira saúde, serviços financeiros, manufatura e varejo, com acesso a mais de 2.000 empresas médias pelas redes dos sócios. Esse último número vem de uma única fonte e vale tratar como estimativa.
Marc Nachmann, da Goldman Sachs, resume a tese (tradução livre):
“Ter só o modelo não muda seus fluxos de trabalho nem a forma como você opera.”
Por que isso incomoda as consultorias
A analista Saanya Ojha, em sua newsletter, chama o movimento de uma corrida pela camada de implantação. O argumento é direto: consultorias se vendem como neutras, mas as empresas dos laboratórios chegam com acesso privilegiado ao roadmap do produto e com engenheiros que conhecem o modelo por dentro. Quem se instala no fluxo de trabalho do cliente fica difícil de tirar.
Há um segundo efeito, mais discreto. A Olhar Digital observa que o modelo da Anthropic combina capital com acesso preferencial de venda às empresas de portfólio dos fundos. Na prática, parte do mercado já nasce com um canal preferencial. Quem não está nesses portfólios disputa o restante.
Onde sobra espaço para consultorias e times de TI
Esta seção é leitura minha, não dado de pesquisa. Enxergo quatro frentes em que uma consultoria independente ou um time interno ainda tem vantagem:
- Neutralidade entre modelos. Uma empresa ligada a um único fornecedor tende a recomendar o próprio modelo. Quem escolhe caso a caso, ou combina vários, entrega algo que o laboratório não consegue prometer.
- Sistemas legados e integração. Agente nenhum funciona se não alcança os dados e os sistemas de 15 anos atrás. Esse trabalho braçal, de modernizar e conectar, continua sendo o gargalo real.
- Governança e custo. Alguém precisa medir se o projeto se paga, definir quem responde pelo erro do agente e controlar a conta de tokens.
- Empresas fora do radar dos fundos. O Brasil tem milhares de médias companhias que não estão em portfólio de Blackstone ou TPG.
O que fazer agora
Se você lidera TI, três perguntas valem uma reunião esta semana. Qual fluxo de trabalho concreto a IA vai mudar, e quem é o dono dele? Quanto do seu conhecimento do negócio está fora do contrato com o fornecedor? E o que acontece com o projeto se você precisar trocar de modelo daqui a um ano?
Se você está do lado das consultorias, o recado é parecido: venda resultado em produção, não demonstração. Os laboratórios entraram no jogo porque perceberam o que muita gente já sabia, que o modelo sozinho não muda a operação.
Conclusão
Com essas empresas, Anthropic e OpenAI compram proximidade com o cliente. Quem implanta software há anos não vai vencer no tamanho do capital, mas pode vencer em conhecimento do negócio, independência técnica e entrega. Como a sua empresa está se preparando para esse cenário? Conheça como a Luby apoia projetos de IA em produção em luby.co.
