Em dezembro de 2025, a Samsung reajustou o preço de contrato da memória DDR5 em mais de 100%, alegando falta de estoque de reserva para atender pedidos de clientes, segundo reportagem da Notebookcheck. Não foi um evento isolado. Em 12 meses, kits de DDR5 acumulam alta de até 500% nos EUA, segundo a Tecnoblog, e o efeito já bateu no orçamento de TI de empresas brasileiras. Para quem planejou a renovação de hardware de 2026 com preços de 2025, o plano provavelmente já furou.
A IA está sequestrando a fábrica de memória
A causa raiz não é falta de silício — é para onde o silício está indo. Segundo a Network World, Samsung, SK Hynix e Micron estão redirecionando capacidade de fabricação para HBM (memória de alta largura de banda usada em aceleradores de IA), que rende de 3 a 5 vezes mais receita por wafer do que a DRAM convencional. O resultado: menos linha de produção sobrando para a DDR5/DDR4 “comum” que equipa PCs e servidores tradicionais.
Os números confirmam a escassez em toda a cadeia. Segundo a Canaltech, módulos DDR5-5600 de 64 GB subiram mais de 480% no período, e kits de 128 GB já custam US$ 3.399 — dez vezes o menor preço histórico. Mesmo a DDR4, tecnologia mais antiga, subiu entre 120% e 177% ano contra ano, porque parte da demanda migrou para lá em busca de alívio.
O orçamento de servidor quase triplicou
Para quem administra data center ou infraestrutura corporativa, o golpe é mais direto ainda. A Network World relata que o preço médio de mercado aberto do RDIMM DDR5 de 64 GB usado em servidores saltou de cerca de US$ 300 em setembro de 2025 para US$ 2.841–2.972 em junho de 2026. Na prática, uma configuração de 256 GB de DDR5 ECC RDIMM que custava entre US$ 800 e US$ 1.200 no início de 2025 hoje sai por US$ 2.000 a US$ 3.500 — quase o triplo pela mesma especificação. Prazos de entrega também alongaram: Dell e Supermicro citam de 6 semanas a até 6 meses para certas configurações.
No Brasil, câmbio e impostos multiplicam o problema
A memória usada no Brasil é 100% importada e cotada em dólar — o que significa que a alta internacional chega ao país somada à variação cambial e a tributos como II, IPI e ICMS. Segundo o IT Forum, orçamentos de upgrade de TI corporativa no Brasil estão rodando de 2 a 3 vezes acima do previsto. Um upgrade de RAM estimado em R$ 5.000 para 10 estações de trabalho pode chegar a R$ 15.000 ou mais — um impacto desproporcional para PMEs, que operam com margens mais apertadas e menos poder de negociação com fornecedores.
O que fazer agora, sem entrar em pânico de compra
Compra antecipada em massa só realimenta a escassez — e executivos do setor, como um VP da AMD citado na cobertura da Network World, apontam que preços “baratos” de DDR5 só devem voltar por volta de 2028. O caminho mais realista para líderes de TI e compras é outro:
- Negociar e travar fornecimento com antecedência sempre que houver volume de compra suficiente para isso.
- Diluir upgrades de hardware ao longo do tempo em vez de renovar todo o parque de uma vez.
- Reavaliar o timing de projetos que dependem de expansão de memória — servidores de IA on-premise, VDI, ampliação de data center.
- Considerar estender o ciclo de vida do hardware atual até que os preços se estabilizem.
Conclusão
A crise de memória vem da corrida por infraestrutura de IA disputando a mesma fábrica que produz a RAM de todo mundo, não de um soluço passageiro de suprimento. Empresas que tratarem isso como planejamento de médio prazo, e não como um imprevisto de compra, vão sofrer bem menos com o próximo reajuste de fornecedor.
