Todo ERP com 15 anos de estrada tem uma história por trás de cada linha de código personalizada: um gerente que precisava fechar o mês, uma regra fiscal urgente, uma exceção para o cliente que não podia esperar. Na época, era a decisão certa. Agora, com a pressão para colocar IA em produção, a conta chegou. A customização no ERP pode travar o retorno da IA, e 2026 é um bom ano para os CIOs olharem para isso de frente.
O problema não é a customização. É o que ela virou.
Segundo o CIO.com, citando a IDC, a fatia de empresas que preferem um ERP customizado quase não se mexeu: 52% no fim de 2024 e 51% em agosto de 2025. Ou seja, muita gente ainda escolhe customizar, e muita gente ainda carrega o que customizou.
A EY Brasil, em texto de setembro de 2025, aponta a customização excessiva como um dos principais entraves para upgrades, migrações, uso de agentes de IA e inovação. Cada camada nova aumenta a complexidade, o custo e o risco de qualquer mudança.
Por que a IA sente isso mais do que as pessoas
Durante anos, as pessoas compensaram as bagunças do sistema. Alguém sabia que aquele relatório precisava de um ajuste manual, que aquele fluxo tinha uma exceção. Um agente de IA não tem esse colega de corredor. Mickey North Rizza, da IDC, resume no CIO.com: agentes de IA “precisam de uma versão única e confiável do processo para agir”.
Angela Maragkopoulou, CIO da Sunlight Group, vai mais direto: se você prende a IA a um cenário muito customizado, “você não ganha inteligência”. Na empresa dela, um SAP legado perdia suporte em 2027 e convivia com sistemas paralelos em fábricas na Grécia, Alemanha e Estados Unidos. Para ela, limpar isso é “o preço de entrada” para a IA.
O relatório The legacy reckoning, da AlixPartners, dá a medida do custo: um terço ou mais do tempo dos desenvolvedores vai para contornar dívida técnica, que também infla os custos de operação em 10% a 20%. A frase que fica: o teto do que a empresa faz com IA é definido pelo piso da infraestrutura que a sustenta.
O freio é de decisão, não só de tecnologia
Aqui está o ponto desconfortável. James Baker, da Bain, diz ao CIO.com que as empresas ainda não estão financiando uma descustomização completa só por causa da IA. Subir IA em cima de uma base instável, segundo ele, não resolve o problema e só torna mais difícil desfazê-lo depois.
Também não encontrei, nas fontes que consultei, uma pesquisa que meça diretamente quanto da customização reduz o retorno da IA. O que existe são dados de dívida técnica em geral e a avaliação de executivos e analistas. Vale tratar a tese como forte, mas ainda sem medição precisa.
O que rever em 2026
Clean core não significa zero customização. Em coluna na Baguete, João Secco lembra que cada empresa tem necessidades próprias e que a saída é customizar com disciplina, e avisa para não tratar o conceito como dogma. Um bom começo:
- Faça o inventário. Liste o que foi customizado, por quem e para qual processo. Converse com quem usa, não só com quem programou.
- Classifique pelo risco. Na linguagem da SAP, os níveis de extensibilidade vão de A (interfaces publicadas) a D (modificações não recomendadas). Comece pelo que está no nível D.
- Tire o específico do núcleo. A EY chama de ERP Surrounding: núcleo próximo do padrão e customizações em soluções satélites desacopladas.
- Crie governança. Sem regra para novas customizações, a limpeza de hoje vira a dívida de 2029. A AlixPartners alerta que a própria camada de agentes pode repetir o acúmulo de legado.
- Amarre ao prazo. Para quem está no SAP ECC 6.0, o fim do suporte anunciado é 31 de dezembro de 2027. Junte migração e preparação para IA na mesma conversa de orçamento.
Conclusão
Ninguém customizou o ERP por descuido. Foi gente tentando fazer o negócio andar. Por isso a revisão funciona melhor quando começa pelas pessoas que conhecem esses processos, e não por um corte de código. Como está a sua conversa interna sobre o assunto? Se quiser trocar ideias sobre por onde começar, fale com a Luby.
