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InsightPor Juliana Roman

IA nas Empresas Brasileiras: Só 15% Chegam ao Estágio Avançado

Tela de laptop exibindo dashboard de análise de dados, representando a medição de resultados de IA nas empresas

Metade das empresas brasileiras já usa inteligência artificial de alguma forma. O número impressiona, mas esconde um dado mais incômodo para quem lidera a estratégia de tecnologia: entre as empresas que adotaram IA, apenas 15% conseguiram transformar isso em capacidade real de mudar produtos, processos ou modelos de negócio. As demais estão presas em um platô de ganhos pequenos e pontuais. Esse é o gap que define 2026: não é mais uma questão de adotar IA, é uma questão de saber operá-la com maturidade suficiente para gerar retorno de verdade.

O salto de adoção esconde um problema de profundidade

A pesquisa “Desbloqueando o Potencial da IA no Brasil 2026”, conduzida pela Strand Partners para a AWS e apresentada em setembro no AWS Summit São Paulo, mostra que a adoção de IA nas empresas brasileiras chegou a 50%, dez pontos percentuais acima do ano anterior, o equivalente a cerca de 12 milhões de negócios (About Amazon Brasil). Em ritmo, isso significa mais de cinco novas empresas adotando a tecnologia por minuto ao longo do último ano (Exame). O levantamento independente do Cetic.br, com metodologia e amostra diferentes, mede a curva em outra escala (de 13% para 17% entre 2024 e 2025) mas confirma a mesma tendência: crescimento acelerado, puxado sobretudo pelas grandes empresas, que saltaram de 38% para 50% de adoção no mesmo período, enquanto as pequenas foram de 10% para 15% (Cetic.br/CGI.br).

Por que 58% das empresas ficam presas no nível básico

O dado central da pesquisa Strand Partners/AWS separa as empresas adotantes em três estágios: 58% operam em nível básico, usando IA para ganhos incrementais de eficiência em tarefas isoladas; 27% estão em nível intermediário, com a tecnologia já integrada a produtos ou serviços; e só 15% atingiram o nível avançado, com capacidade de transformar ou criar novos modelos de negócio (Exame). Essa distribuição revela um funil e não uma escada: a maioria das empresas nunca sai da primeira etapa. A escassez de talento e competências em IA aparece como a barreira mais citada, apontada por 46% a 48% das lideranças entrevistadas, à frente de limitações técnicas de dados (36%) e de capacidade de equipe (35%) (Exame).

O ponto cego do ROI trava a evolução

Há um segundo gargalo, menos falado que a falta de talento, mas igualmente decisivo: 68% das empresas ampliaram investimentos em IA no último ano, porém apenas 33% confiam na própria capacidade de medir o retorno desses investimentos com precisão, e só 28% contam com uma estrutura consistente para fazer essa medição (TI Inside). Sem governança de ROI, é praticamente impossível decidir onde escalar um piloto e onde encerrá-lo, e a empresa acaba acumulando iniciativas de IA que consomem orçamento sem indicador claro de valor. Não por acaso, a mesma pesquisa mostra que só 21% das empresas se sentem preparadas para dar o próximo passo, a adoção de agentes autônomos de IA, e apenas 6% já implementaram algum agente em produção (Exame).

Brasil usa IA de forma mais estratégica, mas cai no mesmo purgatório do piloto

O comparativo global ajuda a colocar o número em perspectiva. Na pesquisa “State of AI in the Enterprise”, da Deloitte, com mais de 3 mil executivos em 24 países, 42% dos líderes brasileiros afirmam usar IA para promover mudanças estruturais no negócio, contra 34% na média mundial (Deloitte). O Brasil, portanto, não está atrás em ambição estratégica. O problema é operacional: tanto aqui quanto lá fora, apenas um quarto das empresas conseguiu levar 40% ou mais dos seus projetos-piloto de IA para produção, e quase todas planejam adotar IA agêntica nos próximos dois anos, mas só 21% globalmente e 27% no Brasil dizem ter um modelo de governança maduro para isso (Deloitte). A ambição existe; a infraestrutura de governança que sustenta a escala, não.

Os dados de 2026 desenham um recado direto para quem lidera tecnologia: adotar IA deixou de ser diferencial, e o novo corte competitivo passa por medição de ROI, governança e talento capacitado para tirar projetos do piloto. Empresas que tratam esses três pontos como parte do roadmap de IA, e não como etapa posterior, são as que têm chance real de sair dos 58% presos no básico e entrar nos 15% que já colhem transformação de negócio. A pergunta que vale levar para a próxima reunião de comitê não é mais “já usamos IA?”, é “temos estrutura para medir se ela está funcionando?”.