Voltar ao blog
Tech NewsPor Rodrigo Gardin

Servidores on-premises em alta: o que a conta de 20% ensina a CIOs

Rack de servidores com luzes verdes piscando em um data center

A manchete circulou nesta semana: as vendas de servidores on-premises para HPC e IA cresceram quase 20% em 2026. Quem lê só o título pode concluir que as empresas estão abandonando a nuvem. Os números contam outra história, e ela interessa mais a quem decide orçamento de infraestrutura. O dado vem da Hyperion Research e foi destacado pelo The Register em 4 de novembro.

O que a Hyperion mediu

Segundo o comunicado da Hyperion, de 3 de novembro, o mercado de servidores on-premises para HPC e IA para ciência faturou US$ 16,5 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 19,9%. O comunicado compara esse valor com US$ 13,8 bilhões do segundo semestre de 2025, enquanto o Register descreve o crescimento como anual. Vale checar isso antes de citar o percentual em reunião.

O detalhe que muda a leitura: as unidades vendidas subiram só 4,4% no mesmo período. O faturamento cresceu mais de quatro vezes mais rápido que o volume, e a diferença está no preço de cada máquina.

O CEO da Hyperion, Earl Joseph, disse que o crescimento reflete “um aumento nominal de unidades compradas e aumentos significativos nos preços dos sistemas” (tradução livre). O Register acrescenta que o preço da memória “triplicou ou quadruplicou” desde o ano passado, além do custo maior de GPUs e aceleradores.

Por que o servidor ficou mais caro

A pressão na memória não é novidade. Em janeiro, o Register relatou que Samsung e SK hynix planejavam reajustes de até 70% na memória para servidores no primeiro trimestre. Somado a cerca de 50% em 2025, isso poderia quase dobrar os preços até meados de 2026. A TrendForce previa alta acima de 60% na DRAM de servidor no trimestre. Os 70% vêm da imprensa coreana citada pelo Register, então é relato, não tabela de preço.

Para quem compra, o efeito é direto: uma máquina com GPUs e bastante RAM custa bem mais do que custava dois anos atrás, sem nenhum ganho de capacidade extra para o negócio.

Quem está vendendo

Ainda de acordo com a Hyperion, a Dell passou a HPE e lidera o mercado, com US$ 4,2 bilhões em receita de servidores no semestre e 24% de participação. A HPE tem 21%, Lenovo e Sugon ficam com 4% cada, e os 45% restantes se espalham entre nomes como Bull, Supermicro, Penguin Computing e NEC. A Hyperion atribui parte do avanço da Dell a grandes compras e à demanda por máquinas de porte médio voltadas a IA.

O mercado é cíclico. A HPE reconheceu muita receita em 2025 com sistemas de classe exascale, e compras desse porte não acontecem todo semestre. Uma liderança que muda de mãos num semestre diz pouco sobre a tendência de longo prazo.

O que isso muda para quem decide infraestrutura

O recorte da Hyperion é HPC e IA científica, não o servidor corporativo comum. Extrapolar para qualquer data center seria um erro. Mesmo assim, dá para tirar algumas lições práticas.

  • Compare preço de hardware, não só volume. Se o mercado gasta quase 20% a mais para comprar 4,4% mais máquinas, o seu orçamento de renovação provavelmente também sofre. Refaça as premissas com cotação atual.
  • On-premises nem sempre é a opção mais barata. Em maio, o CEO da Nutanix, Rajiv Ramaswami, disse ao Register que, pelo poder de compra dos hyperscalers, servidores bare metal em nuvem podem sair mais baratos e chegar mais rápido que hardware próprio. Segundo ele, o cliente escolhe servidor “por preço e prazo de entrega” (The Register, 28 de maio). A Nutanix vende software de infraestrutura e tem interesse no debate.
  • Previsibilidade pesa nas decisões de IA. Na mesma entrevista, Ramaswami disse que os clientes têm preferido IA on-premises para manter os custos previsíveis, embora o retorno da IA ainda seja incerto. Busca e resumo de documentos aparecem como os usos mais comuns.
  • O híbrido continua sendo a resposta realista. Um artigo de 2024 no Baguete, assinado pelo CEO da 4B Digital, lembra que a repatriação não precisa ser total: dados sensíveis ficam em infraestrutura nacional e o que exige escala continua na nuvem. O mesmo texto cita um relatório da Andreessen Horowitz segundo o qual trazer cargas de volta poderia cortar gastos de nuvem em até 50%, número que depende muito da carga e da operação.

Como usar esses números na sua decisão

Antes de comprar servidor ou renovar contrato de nuvem, vale fazer três perguntas. A carga é estável o bastante para justificar hardware próprio? Qual é o prazo de entrega real do fornecedor hoje, e quanto a memória pesa na cotação? E quem vai operar essa máquina daqui a dois anos?

A resposta quase nunca é “tudo na nuvem” ou “tudo no data center”. O aumento de 20% da Hyperion mostra que muita gente ainda quer hardware próprio para IA, mas paga mais caro por isso, e esse custo entra na conta.

Sua empresa já refez o cálculo de nuvem versus servidor próprio com os preços de 2026? Se quiser comparar cenários com um time que opera os dois lados, fale com a Luby.